Envelhecimento do Charuto

É comprovado que o envelhecimento tem impacto incisivo sobre o corpo e o sabor de um charuto e de certa forma todos os bons exemplares passam por este processo. Inicialmente eles passam de 4 a 8 semanas (dependendo do clima e do ambiente) para que alcancem características básicas (e não menos importantes) como regularidade da queima e harmonia entre o sabor folhas ou blend. Em consequência a estes resultados, o envelhecimento mais prolongado potencializa as nuances e complexidade de um charuto.

Os blends mais fortes, encorpados ou potentes, podem trazer principalmente para os novos degustadores um sabor que não agrada nas primeiras puxadas, muitas vezes com notas ácidas e/ou apimentadas demais ao paladar desavisado. Em especial o envelhecimento destes charutos modera a força do blend, minimizando estes efeitos e trazendo à tona com mais facilidade a complexidade latente na sua potência. O envelhecimento é sempre uma alternativa importante para os charutos mais fortes e em menor escala, pode-se envelhecê-los mantendo por mais tempo na sua própria caixa umidora conforme visto aqui.

Ok, Denis. E por que muitos dos melhores charutos não são envelhecidos? Charutos frescos e feitos na hora não prestam?

Há controvérsias na prática do envelhecimento, uma vez que charutos não funcionam como vinhos neste quesito. Existe um pico de maturidade que é extremamente difícil de se mensurar. Cada folha, cada blend e cada clima incide diretamente sobre as propriedades orgânicas do produto final, sendo impossível estipular quanto tempo deve-se maturar um charuto. O fato é que o processo de envelhecimento pode atingir um ápice antes que o processo comece a se reverter. Charutos são plantas, matérias orgânicas que irão se estragar caso sejam guardadas por tempo excessivo.

Realmente me gradam os charutos frescos recém fabricados. Geralmente eles já contam com um processo de maturação feito sobre as folhas antes de serem prensadas, o que os tornam próprios para consumo enquanto ainda jovem. Se não forem consumidos de imediato, aconselho uma maturação de uns 6 meses para aqueles exemplares que acabaram de ser enrolados. Se comprou o charuto em alguma tabacaria, provavelmente não precisará se preocupar com isso, uma vez que lojas especializadas como a tabacaria Gullo, mantém ambiente especialmente climatizado para o descanso dos charutos.

De 1 a 2 anos de maturação é o tempo ideal para os mais pesados e alguns charutos como Bolívar Fuertes se comportam muito bem sendo conservados além deste período, chegando a 5 anos para atingirem sua perfeição. De 7 a 10 anos é geralmente o tempo máximo ao qual a maioria dos charutos sobrevive, atingindo uma cor mais pálida e muitas vezes sendo considerados “vintage”. A prática de se conservar e/ou consumir charutos vintage é mais comum entre os aficionados norte-americanos da alta sociedade, que pagam pequenas fortunas por charutos conservados durante 10 anos ou mais, atingindo notas únicas de sabor e muitas vezes aromas estranhos e desagradáveis. Você poderá encontrar também charutos considerados vintage que apenas são recém construídos com folhas de reservas antigas, como o Gurkha Aged 15 Year.

Tive o prazer de conhecer na República Dominicana a loja da marca Caoba, onde comprei uma caixa de charutos envelhecidos, os quais eles classificam como Caoba, Caoba Oro e Caoba Platinum, tendo eles menos de 1 ano, 1 ano e dois anos respectivamente, segundo o vendedor. Entretanto, muitos fabricantes dirão que o envelhecimento de charutos não traz benefício algum ao produto final, o que pra mim é uma puta duma sacanagem. É óbvio que para quem vende, quanto menor o tempo, maior a quantidade do consumo.

A prática do envelhecimento é nada mais do que um luxo abraçado por alguns aficionados e não significa que você precisa envelhecer seus charutos antes de fumá-los, mas se o fizer, um pouco de paciência e cuidados farão você ter sua própria conclusão a respeito do assunto. Em 1 ano me diga o que achou.

 

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Avatar for Denis Neto

Amante das baforadas mais encorpadas há mais de 15 anos, Denis Neto também é designer, marqueteiro, ilustrador e empresário que está à frente da Boxis. Defensor dos modos mais loucos e simples da degustação, caga e anda para muitas das etiquetas e formalidades que envolvem o tão requintado rito de fumar um bom (ou ruim) charuto.


Os Boêmios 2016. Degustação complexa do modo simples.

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