A Lei de Pureza Alemã

Por trás de toda festa regada a cerveja, há todo um enredo: Os insumos, o processo, os estilos, a logística… e tantos mais assuntos que falaremos por aqui no dia a dia.

Mas o que regulamentaria tudo isso? Ou melhor, há ou já houve regulamentação dos insumos do nosso querido pão líquido?

Contextualizando a Reinheitsgebot.

Reinheitsgebot, a Lei de Pureza da Cerveja, foi uma lei promulgada pelo Duque Guilherme IV da Baviera (região alemã onde está Munique), em 23 de Abril de 1516. Representa assim, um dos mais antigos decretos alimentares da Europa.

ReinheitsgebotAntes de abril de 1516, os cervejeiros da Baviera, na tentativa de sofisticar suas receitas, incluíam diversos tipos de ingredientes na cerveja. Mas a viagem estava demasiada… Fuligem e cal são dois exemplos de ingredientes que você provavelmente não gostaria de sentir na sua cerveja. Acho que causariam algum estrago J

Para evitar tais “problemas”, o Reinheitsgebot instituiu que a cerveja deveria ser fabricada apenas com água, malte de cevada e lúpulo, como ingredientes. Até esta época, a levedura de cerveja não era conhecida, sendo incluído na lei algum tempo mais tarde.

Em 1906, a Lei de Pureza se estendeu a toda a Alemanha, mesmo com as críticas da indústria da cerveja.  No entanto, após a Segunda Guerra Mundial, o decreto foi modificado e incorporado à regulamentação federal para a taxação da cerveja (Biersteuergesetz). Esta modificação consistiu nas seguintes regras:

  • Para as cervejas de baixa fermentação foram autorizados o malte de cevada, o lúpulo e a água.
  • Para as cervejas de alta fermentação foram autorizados, além disso, os maltes de outros cereais bem como um número limitado de açúcares e corantes.

Hoje em dia, devido à regulamentação europeia, outros ingredientes são autorizados nas cervejas alemãs, principalmente para as cervejas destinadas à exportação. Mas, a maioria dos cervejeiros alemães e belgas continuam a seguir as prescrições do Reinheitsgebot. Estas prescrições são consideradas uma garantia de qualidade. Os boêmios mais ferrenhos orgulham-se por esta ser uma lei monolítica e por ela suportar por séculos às pressões do mercado. Digamos que seja a garantia da cerveja ser sempre cerveja.

No Brasil, várias cervejarias artesanais também seguem este princípio, fornecendo-nos cervejas de alta qualidade. A St Gallen, cervejaria de Therezópolis,  é a nossa indicação de hoje.

 

Leia a íntegra traduzida da Reinheitsgebot:

“Proclamamos com este decreto, por Autoridade de nossa Província, que no Ducado da Baviera, bem como no país, nas cidades e nos mercados, as seguintes regras se aplicam à venda da cerveja:

  • Do dia de São Miguel (29 de Setembro) ao dia de São Jorge (23 de Abril), o preço para um Litro ou um Copo, não pode exceder o valor de Munique do pfennig.
  • Do dia de São Jorge (23 de Abril) ao dia de São Miguel (29 de Setembro), o Litro não será vendido por mais de dois pfennig do mesmo valor, e o Copo não mais de três Heller (Heller geralmente é meio pfennig).
  • Se isto não for cumprido, a punição indicada abaixo será administrada.
  • Se todo cervejeiro tiver outra cerveja, que não a cerveja do verão, não deve vendê-la por mais de um pfennig por Litro.
  • Além disso, nós desejamos enfatizar que no futuro em todas as cidades, nos mercados e no país, os únicos ingredientes usados para fabricação da cerveja devem ser cevada, malte e água.
  • Qualquer um que negligenciar, desrespeitar ou transgredir estas determinações, será punido pelas autoridades da corte que confiscarão tais barris de cerveja, sem falha.
  • Se, entretanto, um comerciante no país, na cidade ou nos mercados comprar dois ou três barris da cerveja (que contém 60 litros) para revendê-los ao vendedor comum, apenas para este será permitido acrescentar mais um Heller por Copo, do que o mencionado acima. Além disso, deverá acrescentar um imposto e aumentos subsequentes ao preço da cevada (considerando também que os tempos da colheita diferem, devido à localização das plantações).
  • Nós, o Ducado da Baviera, teremos o direito de fazer apreensões para o bem de todos os interessados.

– Guilherme IV, duque da Baviera, no dia de São Jorge (23 de abril), no ano de 1516, em Ingolstadt”.

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Informações sobre o texto

  1. A caneca da Baviera tinha na época 1,069 litros.
  2. Pfennig é uma antiga moeda alemã, datada do século IX até a introdução do euro em 2002.
  3. Heller é originalmente uma moeda alemã, no valor de meio Pfennig.

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Fonte

Livro “O catecismo da Cerveja”, de Conrad Seidl – Editora SENAC

http://pt.wikipedia.org/wiki/Reinheitsgebot

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Engenheiro de Produção, consultor de Projetos e Processos, músico do choro e do samba no grupo Bença Vó e a frente da ONG PORQUENAORIO. No mais, é apaixonado por cultura, principalmente em Cultura Cervejeira. É um agregador de boas pessoas; um boêmio por natureza.


Os Boêmios 2016. Degustação complexa do modo simples.

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