Matthew Hogg – O homem que fica eternamente bêbado

Imagine ficar bêbado sem saber que está? Por duas décadas, assim foi a vida de Matthew Hogg, 34 anos, que possui uma condição rara que faz com que os alimentos ingeridos por ele se transformem em álcool no organismo – ou seja, basta comer para ficar bêbado. A anomalia seria comparada a uma “fábrica de álcool humana”, já que toda vez que Matthew se alimenta, ocorre um super-aumento da fermentação em seu intestino delgado, que produz etanol puro para ser absorvido diretamente pela corrente sanguínea.

Matthew não soube do diagnóstico por 20 anos, o que significa que passou a maior parte dos seus anos escolares bêbado, devido à doença. A força do álcool produzido pelo seu corpo é tão poderosa que ele sofre uma ressaca todas as manhãs.

 

Os Boêmios - Mathew Hogg 03

Se eu comer uma porção de arroz eu provavelmente vou sofrer de uma ressaca como se eu tivesse ingerido três garrafas de vinho tinto.”, conta.

 

Ele acrescenta ainda que sentiu os sintomas durante toda a infância, e possivelmente desde o nascimento, e diz que sempre foi uma criança tímida e quieta, mas com muitos amigos. “Mas tinha vezes que eu agia como se estivesse bêbado, dizendo coisas horríveis para as pessoas, chateando-as e causando problemas”, relembra.

O homem consultou especialistas de Londres e do México e sua família gastou cerca de 50 mil libras para tentar diagnosticar sua condição. Eventualmente, testes mostravam que o alto nível de etanol poderia estar ligado a um supercrescimento bacteriano em seu intestino delgado. “Eu finalmente reconheci que sofria da síndrome todos estes anos depois de ler em um livro sobre um japonês que foi preso por beber e dirigir, embora tenha insistido que estava sóbrio”. Agora, Matthew segue uma dieta restritiva para tentar administrar a condição. Com isso, não está apto a comer os alimentos mais comuns.

 

O pessoal da VICE ligou para ele para saber como é ser uma cervejaria humana ambulante. Confira:

VICE: Quando você percebeu que seu intestino produzia álcool?

Matthew Hogg: Sofri de problemas estomacais durante toda a infância. Fui diagnosticado inicialmente com síndrome do intestino irritável, no entanto, na adolescência, experimentei uma piora severa dos sintomas, como inchaço e gases depois das refeições — eram tão fortes que eu conseguia sentir a fermentação borbulhar no meu baixo abdômen. Mas desenvolvi sintomas bem mais preocupantes. Eu me sentia embriagado, além de experimentar uma longa lista de sintomas no corpo todo, incluindo fadiga crônica, dores musculares, dor de cabeça crônica, diminuição da capacidade mental, oscilações de humor e por aí vai.

VICE: E você ficava de ressaca?

Matthew Hogg: Sim, no final da adolescência, experimentei ressacas alcoólicas severas, geralmente nas manhãs depois de comer refeições ricas em carboidratos. Eu tinha dores de cabeça terríveis, náusea severa, às vezes com vômito, desidratação, boca seca, suores frios e mãos trêmulas. Era como se eu tivesse saído na noite anterior e bebido o bar inteiro, mas eu não tinha consumido nada de álcool.

VICE: Que horror. E quando você foi diagnosticado com síndrome de fermentação intestinal?

Matthew Hogg: Por fim, me indicaram um especialista em Londres, o falecido Dr. Keith Eaton. Então os exames confirmaram que meu intestino produzia grandes quantidades de etanol de levedura, além de quantidades significativas de outros álcoois associados ao metabolismo de várias bactérias. O Dr. Eaton me diagnosticou com a síndrome de fermentação intestinal e depois o diagnóstico foi confirmado por outros especialistas em doenças crônicas incomuns e não reconhecidas.

VICE: Como a doença afetou sua vida?

Matthew Hogg: Ela teve um impacto devastador em minha vida. Até os 16 anos, eu era um aluno nota A, e achava o trabalho acadêmico divertido e recompensador. Eu era um bom atleta também, e tinha uma vida social ótima. Conforme a síndrome de fermentação intestinal começou a se estabelecer, tudo mudou. Eu me vi sofrendo na escola quando, na minha cabeça, eu sabia que não devia estar tendo problemas. Também tive que abandonar os esportes, porque me sentia exausto depois de uma corrida curta, e me vi lutando para conseguir levantar de manhã. Fiquei apavorado, eu não sabia o que estava acontecendo, eu ficava frustrado e nervoso por não ser mais capaz de funcionar no mesmo nível de antes. Minha vida social degringolou, eu me sentia sozinho e deslocado, e não tinha energia e motivação para fazer parte das coisas.

VICE: E o que você fez?

Matthew Hogg: Consegui entrar na Universidade de Sheffield aos 18 anos para estudar ciências da computação. Mas, no final, não fez diferença, porque viver longe de casa e ter que estudar e socializar ao mesmo tempo era demais para meu corpo e minha mente envenenados. Durei menos de dois semestres. Voltei para casa e procurei trabalhos, mas todos eram pesados demais para mim, então, achei que devia me inscrever para receber benefício por invalidez. Eu não teria conseguido usando somente o diagnóstico de síndrome de fermentação intestinal, porque o governo e a comunidade médica ainda não reconhecem isso [como doença]. Mas, na mesma época, também fui diagnosticado com síndrome do intestino irritável, fatiga crônica, depressão e ansiedade, então meu pedido foi aceito.

VICE: Quando foi isso?

Matthew Hogg: Vivi do benefício e do apoio da minha família de 1999 até 2008, quando meu site dedicado a informar sobre doenças crônicas pouco conhecidas — o Environmental Illness Resource — começou a dar lucro por meio da publicidade, e eu pude me registrar como autônomo. Mas esse período de autossuficiência durou só até 2012, e agora meus pais e minha namorada maravilhosa, a Mandy, com quem moro no momento, me ajudam. Continuo a comandar o Environmental Illness Resource da melhor maneira possível, porque a informação que o site fornece ajuda muitas pessoas em situações similares à minha.

 

Os Boêmios - Mathew Hogg 01

 

VICE: O que você estaria fazendo se não tivesse síndrome de fermentação intestinal?

Matthew Hogg: Eu sonhava em ser um acadêmico, um atleta profissional, um cientista, engenheiro ou piloto de avião. Do jeito que estou hoje, tenho quase 35 anos e passo o dia inteiro em casa; todo dia é uma luta — mas faço o possível para continuar pensando positivo e manter minhas amizades, e acredito que um dia ainda vou recobrar minha saúde.

VICE: Com que frequência você se sente bêbado ou de ressaca? É uma coisa diária?

Matthew Hogg: Se eu tivesse uma dieta normal contendo grãos, frutas e comida processada com a adição de açúcar, eu experimentaria os sintomas que descrevi todo dia, mas aprendi a adaptar minha dieta para minimizar a fermentação em meu intestino. Há muito tempo venho fazendo algo parecido com uma dieta da Idade da Pedra, baseada em carne, vegetais, nozes e sementes. Apesar disso, a causa principal de minha condição não está sendo tratada com sucesso, então, ainda sofro com os sintomas crônicos como fadiga, dores, intolerância a exercícios e stress e disfunção cognitiva, mas não os sintomas de uma ressaca aguda e severa.

VICE: Imagino que essa deve ser a última coisa que você quer fazer, mas você já comeu um monte de alimentos açucarados para ficar bêbado, por razões recreativas?

Matthew Hogg: Francamente, às vezes, em situações sociais — ou quando não tenho mais nada disponível, se estou longe de casa — sou forçado a comer doces ou alimentos ricos em amido. Mas, como regra, prefiro manter a dieta de baixo carboidrato porque as consequências negativas superam o prazer momentâneo. Na maioria das vezes, eu me sinto mais de ressaca do que bêbado como resultado da síndrome de fermentação intestinal, então, apesar de as pessoas acharem que essa condição é um jeito barato de ficar bêbado para propósitos recreativos, essa, infelizmente, não é a realidade.

VICE: Mas você pode ficar bêbado comendo açúcar e carboidratos, certo?

Matthew Hogg: Sim. Muitas vezes, especialmente nos últimos anos no colegial, tive momentos de embriaguez sem ter consumido nenhum álcool. Eu descreveria esses mais como períodos do que como momentos, já que eles duravam algumas horas de cada vez. Esses períodos sempre vinham depois de uma refeição e após algumas horas — que é o período de tempo típico para a digestão e absorção — os efeitos passavam e eu sentia minha consciência normal retornar.

Minhas lembranças desses momentos é que eu me sentia frustrado, porque meu cérebro não estava funcionando no nível que costumava. Eu via as equações nas minhas aulas favoritas e sabia que eu não devia ter problemas para entendê-las e resolvê-las, mas agora elas pareciam rabiscos. Algumas vezes eu também agia como outra pessoa. Eu geralmente era amigo de todo mundo na escola — um cara super sociável. Mas houve casos em que incomodei as pessoas com comportamentos atípicos, semelhantes aos de um bêbado, com os quais eu causava problemas ou deixava escapar coisas que não faria se estivesse sóbrio.

VICE: Não parece nada legal. Como as pessoas costumam reagir quando você conta que seu corpo produz o próprio álcool?

Matthew Hogg: As reações variam muito, tem gente que duvida totalmente e gente que me apoia porque imagina como deve ser essa condição. Tenho sorte de ainda ter contato com muitos de meus amigos mais chegados do colegial, que são muito compreensivos, mesmo nunca tendo experimentado essa condição.

VICE: O fato de pouca gente ter ouvido falar de sua condição torna mais difícil lidar com isso?

Matthew Hogg: Com certeza. E, com frequência, recebo mensagens de visitantes em meu site que sofrem da mesma condição que eu, dizendo que médicos, chefes, colegas de trabalho e até amigos, família e parceiros não entendem. Algumas pessoas acham que estamos inventando essa doença.

VICE: Qual seu conselho para pessoas que sofrem de síndrome de fermentação intestinal?

Matthew Hogg: Eu gostaria que seus leitores que suspeitam ter a síndrome de fermentação intestinal saibam que existem tratamentos efetivos por aí, ainda mais se a condição for diagnosticada logo no começo. A síndrome era algo completamente desconhecida quando fiquei doente, e passei os primeiros dez anos fazendo tudo errado e tornando a situação muito pior e mais difícil de recuperar depois. Espero que minha história ajude as pessoas a reconhecer essa condição, em si mesmo ou em pessoas próximas, e que elas procurem ajuda profissional o quanto antes.

 

Fontes: VICE, TERRA.

 

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Engenheiro de Produção, consultor de Projetos e Processos, músico do choro e do samba no grupo Bença Vó e a frente da ONG PORQUENAORIO. No mais, é apaixonado por cultura, principalmente em Cultura Cervejeira. É um agregador de boas pessoas; um boêmio por natureza.


Os Boêmios 2016. Degustação complexa do modo simples.

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